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terça-feira, 7 de outubro de 2014

O FUTURO PRESENTE

Querida bisavó, estou escrevendo esta carta para que saiba um pouquinho como está o mundo que a senhora me deixou. Bem, assalto virou moda. As pessoas que nunca foram assaltadas sofrem bullying.

Heróis são as pessoas que conseguem sobreviver morando em casas, apesar de que essas casas são bem mais protegidas que as prisões. Um dia, um assaltante entrou aqui em casa e teve que fazer chamada via Skype para meus pais perguntando como ele saía.

Certa vez, encontrei um objeto de papel cheio de nomes e seus significados. Minha mãe disse que era um dicionário e me mostrou uma palavra que não existe mais no idioma português. SAUDADE. Depois de ler o significado acho que é por saudade que lhe escrevo. Talvez essa palavra tenha caído em desuso porque não temos mais contato físico com os outros.

Ainda lembro-me daquela vez, antes da senhora ser levada, em que me mostrou uma coisa calorosa, foi a primeira vez que eu me senti protegido, mesmo com todos os aparatos de segurança em casa eu não me sinto assim. A senhora colocou os braços ao redor de mim e encostou minha cabeça em seu coração.

Eu não sei o porquê da minha mãe preferir uma tela ao meu rosto, o que eu sei é que esse mundo de agora é bem diferente do seu.

Estou com 15 anos agora e, finalmente, aprendi a andar! Isso é muito bom, deveriam ensinar a gente isso antes. Mas minha mãe disse que não há necessidade disso já que passamos 24 horas sentados ou deitados. “Só precisamos das mãos para usar os dispositivos tecnológicos”.

Descobri o que é pôr-do-sol, finalmente. Mas não conseguimos enxergar mais. Além do horizonte agora são as janelas dos edifícios que dão visão para a janela do edifício vizinho. Até no mar está difícil trafegar por causa da poluição. O último rio foi afogado também, porque precisávamos de mais energia.

Bem, é isso bisa, espero que tenha gostado do meu relato. Minha mãe diz que eu não devo escrever para a senhora porque as pessoas velhas não têm mais forças para oferecer ao mundo, mas, sabe bisa, isso não importa. Vou aproveitar enquanto ainda tenho força e dividir um pouquinho com a senhora.

Com carinho real,

Seu bisneto.

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